“Chamamos Relação o fato de que nenhuma cultura se concebe sem todas as outras”, escreve o filósofo, escritor e poeta da Martinica, Édouard Glissant. É sempre na totalidade dessa dinâmica que nos movimentamos, nos distinguimos, divergimos, esgarçamos nosso olhar. O diverso nos testa. À beira do que ainda não sabemos, mas que já adivinhamos no horizonte, fazemos nossa humanidade deslocar-se, transformar-se. Talvez aí sejamos, de fato, inquietos. Hoje é sábado, dia de ler Inquieta, a escrita da velhice, sem pressa, pés pra cima, xícara de café na mão, um sossego tenso e vivo…e como gostaria de um tempo assim o pensador da Martinica!
Quer convidar alguém para tornar-se um inquieto?
#arteepoesia
Baravelli e a quadratura do círculo
por José Carlos Peliano
Entre 21 a 27 de setembro de 2020 passou um documentário no Canal Arte 1, lá pelo meio da semana, sobre o artista plástico paulista Luiz Paulo Baravelli (pintor, desenhista, escultor, gravador, professor e cronista) mostrando seu ofício, comentários e obras em seu amplo, interessante e bem cuidado espaço de trabalho.
Na ocasião expôs e comentou em várias tomadas da câmera seu trajeto como artista, sua concepção de arte bem como algumas impressões de sua experiência e vivência cultural e profissional. Imperdível peça de informação, conhecimento, pesquisa e entretenimento.
Lá pelas tantas, ah, que ele me desculpe a licença poética, Baravelli ou “bar a vela”, onde se amadurece e se serve licores de cores majestosas por taças de telas oceânicas; sim, ele percebeu que ao representar suas pinturas dentro de um espaço fechado por retas em retângulos ou quadrados é prender a fantasia, o sonho, a intuição, a revelação estética entre as quatro paredes da moldura.
Não quer que criação visual e artística fique presa na camisa de força da quadratura. Escapa dela pela apresentação de seus trabalhos sem fecho externo, encaixotamento modular, deixa a beleza do trabalho se expandir para onde quer que a imaginação o leve até a comunhão da obra em si com seu eixo central que lhe dá sustentação, expressão, impacto e vida.
Baravelli não é o primeiro a se manifestar dessa forma em muitos quadros e objetos seus, outros já o fizeram também. Mas foi dele que obtive a explicação da fuga dos limites artificiais, tradicionais e pressupostos. Pode até ser que os outros assim também pensassem e levassem suas telas e trabalhos a utilizarem o espaço circundante que pedia a criação artística. Se não pensaram, no entanto, suas intuições saíram na frente e os levaram a ultrapassar as fronteiras da arte pictórica por necessidade intrínseca do impulso criativo.
A saída encontrada por Baravelli para transformar em telas seus anseios criativos se assemelha ao trabalho do poeta que desvela palavra por palavra e as relações entre elas para levar ao papel físico ou virtual o lirismo que lhe vem sabe-se lá de onde. Dois tipos diferentes de operários da beleza que procuram levar outros olhares dos mundos interno e/ou externo e fazê-los vivos e presentes nas formas manifestas de natureza, meio ambiente e vida.
A comparação entre o soneto e o poema livre deixa clara essas formas de expressão na criação poética. Enquanto o primeiro segue correntes de ares específicos em seus voos líricos e coloridos, o segundo se deixa levar apenas pelas asas de cada verso, onde quer que os levem o espaço, para ao final ter a circularidade das entoações poéticas liberadas pela forma esculpida na gravação lírica das palavras. Mas quem dita a forma da flutuação artística pelos ventos e brisas em ambas manifestações é a intuição, o arrepio mágico que faz o pintor e o poeta pegarem o pincel ou a escrita para transformá-lo no dito pelo não dito, no incorporado pelo incorpóreo, no nascido pelo fecundado.
Então se pintor e escritor trazem para suas formas escolhidas as inspirações obtidas pelos toques da intuição para serem manifestas na tela ou no texto, o que ocorre afinal é deixar cada pintura e poema expressos, pincelados ou escritos, pelos instantes mágicos que os levaram à moldura e á impressão. De fato, a circularidade enquadrada nas formas de expressão escolhidas, ou melhor ainda, na quadratura do círculo.
Baravelli escapa da quadratura deixando suas expressões e montagens pictóricas sem as molduras geométricas convencionais de retângulos e quadrados. Mas não escapa do campo visual do admirador que “enquadra” suas telas sem molduras na moldura abstrata feita através de sua visão focal. Se essa interpretação faz sentido a quadratura do círculo vem em cada um de nós para apreender não somente a realidade externa como também as inspirações que chegam às telas e aos textos. E por extensão às esculturas, às gravações, às instalações e às muitas outras manifestações artísticas semelhantes.
No limite, a circularidade do quadrado e a quadratura do círculo se aproximam na, digamos, geometria artística. Uma acomoda em sua arquitetura de curvas as retas e as formas das construções humanas, a outra circunscreve em sua montagem de linhas e ângulos a linguagem do universo. Da topografia circular da Terra o homem assentou as moradas e os caminhos e da quadratura multiforme da pedra Michelangelo retirou a beleza universal de Davi.
Baravelli retira da quadratura a circularidade de suas obras as quais, no entanto, são captadas pelo enquadramento visual de cada um de nós. Círculos e quadrados em relação lírica. Como em meu poema abaixo dedicado a Oscar Niemeyer em 2002.
sobre curvas
a Oscar Niemeyer
a curva de Einstein
dobra o espaço para os astros serem guardiõesa
curva de seu corpo
abre o espaço para minhas mãos serem adivinhas
a curva de Niemeyer
inventa o espaço para as retas serem femininas
Texto publicado originalmente em Brasiliários.com
Inquieta
por Regina Valadares
Pequenas urgências. É isso que me acomete. Começou faz pouco tempo. Primeiro pensei que fosse um mal humor passageiro. Um mal estar qualquer, daqueles que a gente pensa que é só chupar uma pastilha de magnésia que passa. Quem sabe é um resquício daqueles fúrias da menopausa? Não. Tem mais jeito de ressentimento, sabe?Uma dorzinha chorosa, um “puxa a vida” muxoxado, não é hora disso, não é hora de acerto de contas com a vida, o mundo já está tão conturbado… Talvez se eu tomasse um remédio, um calmante, um tranquilizante, ou me jogassem aquele dardo que atiram em animais selvagens pra apaziguar as feras… Porque é uma coisa feroz esse negócio que parece querer sair de dentro de mim. Respira, mulé! Bebe água, abraça a árvore, conta até cem. Olha as flores, o verde, o céu! O céu! Plutão entrando em Aquário…Aquário: mudança. Aquário no ascendente. O inesperado tão esperado.
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#boasleituras e reflexões que sopram ventos novos

O mundo vivo e pulsante de arquipélagos interconectados de Édouard Glissant — filósofo, escritor e poeta nascido na Martinica — propõe uma poética da Relação em que as diferenças não se dissolvem, mas coexistem numa tensão criativa. Suas ideias sobre crioulização, opacidade e intercâmbio cultural abrem possibilidades éticas e políticas que vão muito além da tolerância: afirmam o direito de cada cultura a permanecer singular, sem ser reduzida ou assimilada.
O Tratado do Todo-Mundo, de Édouard Glissant, editora N-1
A belíssima exposição das obras de arte que compunham o acervo do filósofo, A terra, o fogo, a água e os ventos, por um Museu da Errância, está no Tomie Ohtake e termina dia 25 de janeiro, aproveite o domingo e vá ver.


Conversas do arquipélago, Édouard Glissant e Hans Ulrich Obrist, editora Cobogó
#youtube
Vamos falar de morte?

Já temos 4 episódios no ar e mais 2 vindo por aí para completar a temporada.
- O tabu da morte, com Sylvia Loeb, May Parreira e Adília Belotti
- Como dançar com os mortos, com Sylvia Loeb, May Parreira, Adília Belotti e Kaike Nanne, autor de Como dançar com os mortos, Maquinaria Editorial
- Luto nas festas de final de ano, com Sylvia Loeb, May Parreira, Adília Belotti e Tom Almeida, do Movimento inFinito
- Morte e velhice no Brasil, com Sylvia Loeb, May Parreira, Adília Belotti e Mary del Priore, autora do livro Uma história da velhice no Brasil, Autêntica Editora
E vem aí mais conversas sobre morte, luto, desapego, sempre com a seriedade necessária, com o humor possível e uma curiosidade pronta para novos jeitos de enxergar esse assunto tão cercado de tabus.
Obrigada por ler Inquieta, a escrita da velhice, que tal compartilhar com alguém que você julgue que vai gostar de ler?

Regina Valadares é carioca, bandeou-se pra São Paulo há mais de 30 anos, mas não perde o chiado nem o péssimo hábito de falar sufá, tumate e mustarda, por mais que os filhos a corrijam. Jornalista, já trabalhou em revista, jornal, site. Fez roteiros pra série Tapas e Beijos, escreveu um livro de frases chamado Só uma mulher sabe o que é e nas horas vagas é aprendiz de feiticeira. Nativa de Leão com ascendente em Aquário. Adora escrever ficção, embora seja tudo verdade, e uns sentires loucos que insiste em tentar definir.
José Carlos Peliano é mineiro de Juiz de Fora, nascido em 1948. Doutor em Economia pela UNICAMP, trabalhou no IPEA, na Universidade de Brasília, no CNPQ, é convidado para palestras, cursos, tem uma longa lista de publicações técnicas e…é poeta. Poeta e escritor, sim, daqueles que se inspiram em jabuticabeiras, caixas vazias, quintais e ganham prêmios. Seu último livro, Nada Mais, foi publicado pela editora Kotter em 2025

