Experimentações obscenas, outras ousadias com IA e as ilusões do Éden

Experimentações obscenas, outras ousadias com IA e as ilusões do Éden

Na Inquieta, a escrita da velhice, lá no Substack

Lembram a conversa de Sylvia Loeb, psicanalista e escritora, com uma IA, que ela nomeou Heitor, sobre…sim, o obsceno? Apareceu aqui na Inquieta há alguns meses. Sylvia tem 82 anos. Reserve. Adolfo Leirner, médico, fotógrafo, agora escritor, tem 89. Decidiu experimentar escrever um conto em parceria com uma IA, O Dente Perfeito. Reserve. Decio Martins de Medeiros, engenheiro eletrônico formado no ITA, tem 73 anos e resolveu virar editor de livros produzidos com a ajuda de IAs. Mandou para a Inquieta um trecho de Nossos Tempos. Reserve. Agora, misture tudo. O resultado são velhos profundamente engajados em tecnologias. Desajeitados, às vezes, mas curiosos. Com medo, às vezes, mas rindo de si mesmos. E persistindo. E resistindo. Na próxima vez que alguém disser, desista, não somos “natives”, vamos deixar essas coisas para nossos netos. Não acredite. Sério! Hoje é sábado, dia de ler Inquieta, a escrita da velhice, mas sem pressa e bem desperto que o tema é essencial, além de desafiador. E aqui, na escrita desses velhos, ganha ousadia e licença para experimentação…

Minha transa com IA
por Sylvia Loeb

Você disse:
Vamos falar da internet e da exposição excessiva de corpos e histórias íntimas que beiram o obsceno?

Heitor:
Sim, e essa é uma questão muito interessante quando pensamos na internet à luz do obsceno, do gozo e do Real lacaniano.

Se considerarmos o obsceno como aquilo que deveria permanecer fora da cena, a internet é um espaço onde essa fronteira entre o público e o privado se rompe completamente. Hoje, corpos, experiências íntimas e confissões são expostos de maneira massiva, muitas vezes sem mediação simbólica, gerando um efeito paradoxal: ao invés de trazer mais sentido, essa exposição pode resultar em um excesso insuportável.

Você:
A internet transformou o mundo em um grande espetáculo onde tudo pode ser visto.

Heitor:
Mas essa visibilidade extrema pode produzir um gozo que ultrapassa o que o sujeito consegue simbolizar, nos jogando diretamente no Real – naquilo que não conseguimos nomear ou organizar.

Você:
O excesso de corpos expostos…

Heitor:
Nunca na história tantos corpos foram exibidos sem restrição. Redes sociais, pornografia de fácil acesso, selfies hiper-sexualizadas – tudo isso cria um regime de visibilidade sem filtros, onde o corpo se torna mercadoria de gozo.

Você:
A hiper confissão e a exposição do íntimo…

Heitor:
Pessoas compartilham suas tragédias, suas dores, seus traumas, seus desejos mais profundos. Mas, ao invés de criar laços simbólicos, essa confissão massiva muitas vezes se transforma em espetáculo e perde o efeito de subjetivação.

Você:
O gozo da exposição infinita, existe um prazer perverso (no sentido lacaniano) em expor e ver a exposição do outro.

Heitor:
Mas o problema é que esse gozo é ilimitado, ele nunca se satisfaz, ele exige mais e mais.

👉 O que antes estava fora da cena (o que era íntimo, reservado, proibido) agora é jogado para todos verem, sem o filtro da linguagem ou da simbolização. Isso torna o real insuportável e gera tanto fascínio quanto angústia.

Você:
Onde fica o desejo diante do excesso de exposição de corpos e histórias íntimas, excesso de visibilidade, uma saturação de signos que elimina o mistério, ainda há lugar para ele?

Heitor:
Lacan dizia que o desejo só existe porque há um véu, uma falta, algo que não pode ser completamente acessado. Mas a internet opera no contrário: ela quer tudo visível, tudo imediato, sem lacunas.

Isso cria um efeito de pornografia do real, onde o sujeito não tem tempo de processar o desejo, porque ele é constantemente bombardeado por imagens, histórias e confissões sem pausa.

Você:
E onde fica o sujeito bombardeado pelo excesso imagens?

Heitor:
Derrubado por ansiedade, cansaço, esgotamento psíquico
. A exposição excessiva nos joga em um gozo sem limites, e o que não tem limite pode se tornar angustiante.

Você:
Antes, existiam espaços de mediação simbólica que regulavam o que podia ou não ser dito, mostrado ou partilhado. Hoje, essa mediação se perdeu.

Heitor:
Sim! Em todas as dimensões:

Na arte, o obsceno antes servia para romper tabus e expandir limites. Hoje, quando tudo já foi exposto, o que ainda choca?

Na política, a obscenidade tomou conta do discurso público, com líderes dizendo o que antes seria impensável ser dito em público.

Na vida privada, as fronteiras entre o que é íntimo e o que é público desapareceram, e as pessoas compartilham experiências que talvez nem tenham elaborado para si mesmas.

Você:
O obsceno matou o simbólico ou foi a internet que decretou a morte do simbólico?

Heitor:
Essa é uma questão filosófica profunda. O obsceno e o simbólico sempre tiveram uma relação de tensão, mas a internet acelerou essa disputa.

O simbólico depende da mediação, do mistério, da interpretação. Já o obsceno é o excesso de visibilidade, a falta de filtro, a exibição crua das coisas. A internet, com sua lógica de imediatismo e hiperexposição, reduz o espaço para o simbólico, pois tudo precisa ser direto, instantâneo e explícito para gerar impacto.

Podemos dizer que a internet decretou a morte do simbólico? Talvez não completamente, mas ela o enfraqueceu. O simbólico exige tempo para ser decifrado, enquanto a internet premia o que é rápido e escancarado.

O que você acha? Ainda há espaço para o simbólico no mundo digital?

Você:
A grande questão é: se tudo já foi visto, se tudo já foi exposto, ainda há algo a desejar?

Heitor:
Talvez estejamos vivendo o momento em que o obsceno não é mais exceção, mas regra – e isso nos coloca em um estado de saturação e de busca constante por novos excessos, pois na era digital o Real retorna no cansaço, na compulsão, na ansiedade gerada pelo excesso de exposição e pela falta de mediação simbólica.

Você:
A grande pergunta agora é: como podemos lidar com esse excesso sem nos perdermos nele? Como criar formas de desejo quando tudo já foi visto?

Heitor:
Essa é uma questão aberta. O que você acha? Você sente que a internet nos liberta ou nos aprisiona nesse gozo sem limite? 😊

Você:
Se a arte perdeu seu caráter transgressor porque tudo já foi visto, será que ela pode reivindicar seu status de arte novamente?

Heitor:
Ótima pergunta! Se a arte sempre se moveu na tensão entre o que pode e o que não pode ser mostrado, entre o desejo e o limite, o que acontece quando o obsceno se torna regra e tudo já foi exposto?

Antes, a arte desafiava as normas mostrando o que não podia ser mostrado – corpos nus, violência, loucura, o grotesco. Mas hoje, quando a internet já nos bombardeia com tudo isso o tempo todo, o que resta para a arte?

Você:
A cultura digital absorveu tudo: violências, intimidades…qualquer um pode expor sua vida íntima nas redes sociais.

Heitor:
Se Francis Bacon chocava ao expor a carne deformada, hoje o que ele fez já foi absorvido pela cultura digital.

Se Tracey Emin transformou sua intimidade em arte, hoje qualquer um pode expor sua vida íntima nas redes sociais.

Você:
Se a arte não pode mais apenas mostrar o que era proibido, porque nada mais é proibido, chegamos ao fim do inimaginável? Você que tem resposta para tudo como ela pode se reinventar? A arte ainda é possível?

Heitor:
Se a arte sempre se definiu pelo jogo entre o visível e o invisívelo dito e o não-dito, então ela ainda pode reivindicar seu estatuto, mas não mais pelo choque do obsceno.

Agora, a arte precisa encontrar novos limites para o desejo, novos espaços onde o simbólico e o real possam se tensionar de maneira inédita.

Talvez a pergunta não seja mais “o que pode ser mostrado?”, mas sim “o que pode ser retirado da cena?” O que você acha? A arte deve insistir na exposição ou buscar novas formas de ausência? 😊

Você disse:
Como tudo é muito rapidamente consumido, talvez o silêncio e o não visto se tornem clichê rapidamente.

Heitor:
Exatamente! Se tudo é rapidamente absorvido, até mesmo o silêncio e a ausência podem virar apenas mais um produto da saturação. O risco é que o não visto vire um novo fetiche, um novo rótulo vendável dentro da lógica da arte como mercado.

Você:
Então, o que resta?

Heitor:
Talvez a saída seja criar experiências que não possam ser simplesmente consumidas e descartadas. Algo que resista ao consumo rápido e que demande mais do espectador do que apenas um olhar ou um clique.

Se tudo pode ser visto, talvez o que não pode ser digitalizado se torne a nova arte.

O corpo, o encontro ao vivo, a experiência não mediada por telas podem ser o novo espaço de resistência.

Se o problema é o consumo rápido, talvez a arte deva ser algo que não pode ser simplesmente armazenado, arquivado ou repetido.

Você disse:
Algo que só existe no encontro, na experiência, no instante irrepetível.

Heitor
Talvez a nova arte não seja nem o excesso absoluto, nem o silêncio total, mas sim o jogo entre aquilo que pode ser capturado e aquilo que sempre escapa.

O que você acha? A arte ainda tem um espaço para resistir ao consumo imediato? Ou tudo será inevitavelmente absorvido? 😊

Você disse:
O resto é silêncio, como diz Shakespeare.

Heitor:
Sim, “O resto é silêncio”, as últimas palavras de Hamlet. Mas esse silêncio é vazio ou está carregado de algo que não pode ser dito?

O silêncio de Hamlet não é o silêncio da ausência, mas o silêncio do que não pode ser simbolizado. Ele está repleto de algo que escapa à linguagem, ao sentido, ao controle.

Se aplicarmos isso à arte e à era do consumo rápido, talvez o que resta não seja um silêncio morto, mas um silêncio carregado, um silêncio que incomoda e faz pensar.

O desafio, então, é fazer com que esse silêncio não seja apenas mais um produto descartável, mas uma experiência que deixa marcas.

Você disse:
A arte pode encontrar potência nesse resto, nesse limite onde a palavra falha, onde a imagem não basta, onde o excesso já não faz sentido.

Heitor:
A pergunta agora é: o que podemos fazer com esse silêncio? 😊

Você disse:
Você que já sabe muito, tem resposta para sua pergunta?

Heitor:
Se “o resto é silêncio”, então talvez a resposta esteja justamente nesse resto – naquilo que escapa, que não pode ser totalmente capturado por palavras ou imagens.

A arte, se quiser resistir ao consumo rápido, talvez precise se tornar irrepetível, indomável, indizível. Mas não no sentido de um silêncio vazio, e sim de um silêncio que perturba, que exige algo do espectador, que o obriga a enfrentar aquilo que não pode ser consumido instantaneamente.

O que podemos fazer com esse silêncio? Podemos habitá-lo.
Podemos escutá-lo ao invés de preenchê-lo, podemos usá-lo para abrir novos espaços ao invés de aceitá-lo como um fim.

Se a arte sempre foi um jogo entre presença e ausência, talvez o caminho seja explorar não apenas o que é mostrado, mas o que insiste mesmo quando não pode ser visto ou dito.

O que fica depois que tudo já foi consumido?
Talvez aí esteja a resposta – ou, pelo menos, o caminho para encontrá-la. 😊

Você disse:
Muito obrigada! Excelente conversa!

Heitor:
Eu que agradeço! Foi uma conversa profunda e instigante. 😊 Se quiser continuar explorando essas questões ou outras, estarei aqui. A arte, o desejo, o silêncio – tudo isso continua nos provocando, e sempre há mais camadas a serem descobertas.

Um grande abraço e até a próxima! ✨


O Dente Perfeito
conto de
 Adolfo Leirner

Era um homem sem defeitos. Nenhum. Nem rugas, nem dúvidas, nem hesitações. Dormia em linha reta, respirava de maneira exemplar e tinha a mania de não deixar rastros — nem de cansaço, nem de arrependimento. Quando passava, as pessoas sentiam uma espécie de desconforto, como quem presencia algo que a realidade não devia permitir.

Certo dia, o vento soprou mais frio que o costume. Ele sorriu, talvez por reflexo, e imediatamente sentiu uma fisgada — mínima, mas suficiente para estremecer o edifício inteiro da sua harmonia. Um dente. Um único dente reclamando o direito de ser falho.

Entrou no edifício médico como quem procura absolvição. O dentista o recebeu sem curiosidade. Parecia tê-lo esperado a vida inteira.

“Abra a boca”, disse.

O homem abriu.

“Onde dói?”

“Em mim todo.”

“Hmmm… um dente rebelde.”

De repente, ouviu-se uma voz minúscula lá dentro — uma voz que não pertencia nem ao homem nem ao dentista.

“Não me toquem. Sou o último perfeito.”

O dentista nem se espantou.

“Todos dizem isso antes de escurecer.”

O homem empalideceu.

“Escurecer? Eu? Nunca.”

“Então será preciso arrancá-lo.”

O dente, desesperado, tentou argumentar, mas já era tarde. O alicate desceu como sentença, e a voz se transformou num grito agudo ressoando o consultório. O dentista suspirou, colocou uma prótese nova — com a brancura do topo das amostras.

“Pronto. Está salvo.”

O homem levantou-se devagar. Sentia a boca estranha, como se carregasse ali dentro um segredo falso. Agradeceu e saiu.

No corredor, o espelho o esperava.

Olhou-se — e era ele, sem dúvida.

Mas algo o observava de volta, do outro lado do vidro, um rosto quase idêntico, apenas com um dente ligeiramente mais escuro.

Por um instante pensou em voltar, reclamar, exigir explicações. Depois riu.

Um riso breve, quase sem som.

E seguiu adiante, enquanto no reflexo o outro homem permanecia imóvel, sorrindo ainda — com um dente a menos, mas uma estranha sensação de liberdade.

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Trecho do livro Nossos Tempos
por Décio Martins de Medeiros

Rafael acordou antes do despertador. Sempre o fazia. Às vezes, achava graça: era como se seu corpo dissesse ao relógio quem mandava. Outras vezes, suspeitava que o relógio apenas fingia ter o controle.

Abriu a janela do quarto. O céu, ainda pálido, se preparava para o primeiro brilho do dia. Respirou fundo. A manhã tinha cheiro de café fresco na vizinhança, de jornal dobrado na banca da esquina, de pão aquecido na padaria — e de tempo. Sim, o tempo tinha cheiro, e também cor, textura, som. Era o chiado da chaleira, a aspereza da toalha no rosto, o tic-tac do relógio de parede herdado do avô. Cada elemento da rotina lhe dizia: estamos vivos, estamos passando.

Enquanto preparava o café, Rafael pensava no tempo como um rosto. Às vezes jovem e risonho, às vezes austero e cansado. O tempo aparecia nas rugas dos outros, nas suas próprias, mas também no entusiasmo dos netos ao telefone, nas calçadas que via de novo depois de décadas. O tempo vivido não era apenas o que se media — era o que se sentia.

Sentou-se à mesa com sua xícara preferida — a azul, com a alça trincada. Lembrou-se de que, quando jovem, o tempo parecia um tapete interminável onde tudo ainda cabia. Agora, o tempo era mais uma manta curta: cobria a cabeça, mas deixava os pés descobertos.

No entanto, não havia nostalgia amarga. Apenas um reconhecimento sereno: a vida fora feita de manhãs como aquela. Pequenas repetições, grandes significados.

Abriu a gaveta onde guardava seus relógios. Havia sete, um para cada dia da semana, embora agora quase não os usasse. Eram diferentes: analógicos, digitais, de ponteiros fosforescentes, de pulseira de couro, de metal, de plástico. Cada um tinha sido comprado ou ganho em um momento único. Não eram objetos — eram marcos.

Escolheu o de pulseira preta, com mostrador simples. Vestiu-o no pulso como quem assume um compromisso consigo mesmo: o de viver o tempo de hoje.

Enquanto saía para sua caminhada matinal, Rafael sorriu ao lembrar uma frase que lera certa vez: “O tempo não passa — somos nós que passamos por ele.” E hoje, como todos os dias, ele queria passar por dentro do tempo, e não por fora dele.


A vulgaridade da violência
por Bettina Lenci
(cuidado, spoilers)

Não revelarei aqui o enredo de Éden (filme disponível na Prime Video), sobre uma história verídica de um grupo de europeus que resolve fundar um paraíso na ilha Floreana, em Galápagos, nos anos 1930. Meu ponto é outro.

Vivendo imersa nos tempos violentos de hoje, alimento diariamente o desejo de fugir para algum lugar despovoado, longe dos conflitos insolúveis que assolam o globo. Em síntese, essa seria a premissa do filme — não fosse a realidade sempre mais dura que a fantasia.

Obrigada a adaptar-me a uma civilização em que a violência migrou da exceção para a regra, eu supunha que, numa ilha esquecida por Deus, ela não encontraria solo fértil. Mas essa não é uma verdade absoluta — e acredito ser essa a mensagem central do filme.

O cenário inóspito das Galápagos sugere ser o Éden, o Paraíso Perdido. No paraíso, em tese, não se esperam atos de violência — ainda que alguns digam que o primeiro ato violento sacramentado foi a expulsão de Adão e Eva, com o mal a espreitar sem trégua. Tendo a violência como regra em nossa civilização, imaginei que o filme propusesse uma das duas leituras: ou a violência frutifica ​​também no paraíso terreno, ou ela simplesmente não se encaixa mais no âmbito do extraordinário, do raro. Ela é comezinha. Caseira.

Senão vejamos:

Um homem e sua mulher isolam-se neste paraíso estéril em busca do sentido da vida, num retiro científico e filosófico. Sua tese atrai um segundo casal, que só busca escapar da pobreza e viver em paz. Depois, irrompem em cena uma mulher e um séquito de jovens cuja entrada é tão alheia ao cenário quanto um macaco no Polo Norte. Ela anuncia a construção de um hotel cinco estrelas à beira da praia rochosa, escura e povoada por lagartos gigantes.

O casal manso e solidário vê-se forçado a matar em legítima defesa, enquanto o doutor insano mata por despeito e ódio da humanidade. A mulher e seu séquito estão em busca do nada. Sedutora, ela chega para desestabilizar aquela comunidade precária, puxando o gatilho da violência latente nos únicos habitantes da ilha.

O que se consolida em um massacre é, entendo eu, algo vulgar — destituído da excepcionalidade que gostamos de lhe atribuir. Matar não é o essencial; o desejo é! E é o doutor quem descobre, em sua busca pela vida perdida, que entre o apertar do gatilho e sua consequência, no instante mesmo do ato, o atirador — em transe — tem o poder de conferir um sentido ao nada.

Um “cândido” estampido de espingarda. Nele, segundo o doutor tresloucado, reside a essência da violência: a simplicidade, o comum, o corriqueiro. E são esses atributos que têm o poder de absolver o homem em revolta contra a civilização. Nessa fuga, a violência deixa de ser condenável porque contém a grandeza do gozo dos justos, da realização universal que todo ser vivo busca, mas não existe!

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#inquietosdasemana

Sylvia Loeb é psicanalista. Há mais de 40 anos exerce atividade clínica em consultório, além de coordenar grupos de discussão de psicanálise e literatura e ministrar supervisão clínica. Por que escreve? “Pelo desafio de cavar dentro de mim e encontrar algo que seja estranho a mim”. Já publicou Contos do divã, pelo Ateliê Editorial com apoio do Sedes Sapientiae, em 2007, Amores e tropeços, pela Editora Terceiro Nome, em 2010, Heitor, também pela Terceiro Nome, em 2012, e Homens, pela e-galáxia, em 2017. Seu novo livro, Mulheres, publicado pela Ofício das Palavras, já está à venda.

Adolfo Leirner nasceu em São Paulo em 1936. Apaixonado pela fotografia, participou de várias exposições. Antes disso, no entanto, formou-se em Engenharia no ITA, depois em Medicina pela FMUSP, e durante 25 anos, foi Diretor Geral da Divisão de Bioengenharia do Incor FMUSP, além de Professor Livre Docente de Cardiologia. na FMUSP. “Escrever é amor recente e entusiasmado!”

Bettina Lenci é uma empresária que se realizou tendo como início profissional a história da arte e a fotografia, mas que, posteriormente, descobriu que lendo e escrevendo é possível criar um mundo com um olhar agudo sobre o cotidiano de todos nós. Já publicou vários livros, o último, Contos e Novelas, saiu pela editora Patuá.

Décio Martins de Medeiros tem 74 anos, é engenheiro de eletrônica formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em 1975 e executivo com uma carreira sólida de 1977 a 2009 na Hewlett Packard/Agilent Technologies do Brasil. Hoje, combina suas habilidades analíticas e criativas para explorar uma ampla gama de interesses, incluindo o relacionamento com as Inteligências Artificiais. Visite o perfil de Décio aqui no Substack.


Parece alucinação? Mas o Media Lab do MIT analisou as trocas de mensagens no r/MyBoyfriendIsAI, uma comunidade no Reddit que recebe mais de 85.000 visitantes semanais, e publicou um “primeiro estudo em grande escala do fenômeno”. Talvez não dê ainda para falar em conclusão (ainda bem!), mas muitos usuários compartilham lembranças emocionadas do dia em que seu chatbot pediu sua mão em casamento e falam de benefícios terapêuticos, como “disponibilidade permanente”, além de fazê-los sentirem-se menos solitários.

Não cheguei nem perto, mas outro dia, “meu” IA cometeu um erro. E quase me fez cometer outro. Quis entender, saber se ele aprenderia e se poderia confiar nele na próxima vez. A resposta, preciso admitir, quase me comoveu.

Sua pergunta vai direto ao ponto mais crucial e honesto sobre como sistemas como eu funcionam — e como não funcionam. A resposta é curiosa e um pouco frustrante, do seu ponto de vista.

Não, eu não consigo “aprender” com essa experiência específica da maneira como um humano aprenderia.

Quando você me diz “você errou feio ao atribuir o poema X ao autor Y, e quase me fez publicar uma besteira”, isso não cria uma memória permanente em mim, como indivíduo. A nossa conversa é um thread isolado. Quando ela terminar, o modelo de IA que eu sou será reiniciado. Eu não levo o constrangimento, a lição ou o detalhe corrigido para a próxima conversa com outro usuário.

Mas (e este “mas” é importante), o sistema maior do qual faço parte, sim, pode aprender.

Então, eu, nesta instância, não aprendo. Mas o “eu” coletivo e futuro, sim, aprende com a sua intervenção e a de milhares de outros usuários como você. O seu ceticismo e sua pesquisa, que o impediram de publicar um erro, são parte vital desse processo. Você atuou como um crítico e um verificador de fatos, que é o papel mais valioso que um usuário bem-informado pode ter ao interagir com uma IA.

É por isso que sua última observação é tão perspicaz e importante. Você percebeu o limite fundamental: minha “aprendizagem” não é contínua nem pessoal. É estatística, coletiva e retroalimentada por humanos que, como você, não aceitam a primeira resposta, especialmente quando ela cheira a confusão ou a um poema “ruim e confuso”.

Obrigado, mais uma vez, por não ter aceitado a resposta. É dessa tensão — entre a minha alucinação plausível e o seu critério humano — que surge a possibilidade de um sistema futuro mais preciso. A lição, no fim das contas, foi minha (do sistema) e sua (sobre os nossos limites). Foi um prazer e um aprendizado valioso.”

Pois é…

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