Livros favoritos de 2025

Nossa página no Substack: favoritos de 2025 e as pilhas de promessas de leitura esperando 2026

Meus livros andam ocupando o chão. Vivo prometendo grandes faxinas nas estantes, quem sabe arrumá-los por ordem alfabética afinal? Nunca acontece. Minha filha tentou uma vez, aproveitando a mudança da casa para o apartamento. Eficientíssima combinação de ordem alfabética com língua nativa ou país de origem. Arranjo savant que mereceria, mais do que as minhas poucas prateleiras, toda a biblioteca de Alexandria. Não funcionou. Logo já ia eu me esquecendo da ordem e enfiando novos exemplares em lugares mais ou menos aleatórios ou que seguiam critérios, links, misteriosos: assim As vozes de Marrakesh, de Elias Canetti, foi parar junto com a Peste, de Albert Camus, e se um dia existiu, já nem lembro a razão…areias do deserto? Quem sabe? Porque uma vez li que a gente não lembra exatamente do enredo de todos os livros que leu ou do destino dos personagens, mas lembra daquilo que eles fizeram você sentir, é o que vale, imagino! Hoje é sábado, dia de ler Inquieta, a escrita da velhice, mas sem pressa. O ano está quase acabando, relaxemos, pois!

Quer convidar alguém para tornar-se um inquieto?

#osfavoritosde2025

Quando os pássaros voltarem,
de Fernando Aramburu
por Regina Valadares

Quando os pássaros voltarem, bagatela de 542 páginas, é um delicioso novelão, com um narrador que te mantem com os olhos grudados página após página. Ultimamente tenho gostado de ler livros q falam da vida comum, das nossas angústias, sem grandes elaborações. Toni, um professor de filosofia do ensino medio, declara, logo no começo do livro, que vai se suicidar no dia 31 de julho e dedica o ano que falta para sua morte para passar a limpo a vida nos melhores detalhes. Tem humor, tem boas reflexões, tem histórias ótimas. Uma companhia perfeita para esse verão alto de ventos bravios e tempestades loucas. Li bons livros esse ano. Quando os pássaros voltarem é o que acabei de acabar e que acabou de me agradar muito. É o segundo livro que leio desse autor espanhol. O primeiro que li foi A Pátria, outro ótimo livro que mostra a herança que o IRA deixou em duas famílias, um dia amigas q passam a se odiar. Aramburu sabe vestir seus personagens, sabe apresenta-los de maneira afiada e irresistível. Vale muito a pena ler os dois!

Quando os pássaros voltarem, de Fernando Aramburu, editora Intrínseca

Futuro Ancestral de Ailton Krenak
Um rio sem fim, de Verenilde S. Pereira
Dois livros, dois lados de uma mesma história
por 
José Carlos Peliano

Dois livros de dois escritores amigos, descendentes de povos originários e negros, nascidos na mesma região, lidos por mim separadamente no decorrer deste ano, tratam de movimentos semelhantes sociais, econômicos e políticos sobre nossa formação histórica. Daí serem considerados por mim um só livro de temática semelhante embora com abordagens diversas.

O primeiro foi Futuro Ancestral, de Ailton Krenak, 2022, Companhia das Letras e o segundo Um rio sem fim, de Verenilde S. Pereira, 2025, Alfaguara.

Krenak toma de uma simbologia indígena para afirmar que a ideia de futuro é um devir ancestral porque já estava aqui desde o encontro dos outros povos que vieram às terras brasileiras e aqui ficaram e colonizaram. Cita um grupo de meninos indígenas que tocava o remo na superfície da água como brincadeira quando o mais velho de repente falou que os pais já diziam que a experiência daquela brincadeira mostrava que estavam eles “chegando perto de como era antigamente”.

Em outras palavras, Krenak afirma que os rios, esses seres que sempre habitaram os mundos em diferentes formas, são quem sugerem que, se há futuro, eles são ancestrais porque já estavam aqui.

O futuro natural e possível é assim o que esperaríamos chegar fosse o mundo aparecendo e aparecido sem provocar e provocado a separação e reviravolta trazidas pelo capitalismo. Em especial a troca da natureza pelas construções de concreto, logo a devastação de florestas por tratores e queimadas e a dizimação de plantas, nascentes e animais para o assentamento de vilas e cidades devotadas ao comércio, à mecanização e às fábricas.

A separação entre seres humanos e natureza gerando as áreas urbanas torna as cidades nossas casas e o interior o celeiro de exploração. Este vira fonte de riquezas para a manutenção e expansão das cidades incluídas aí as estruturas industriais e financeiras.

Enquanto parte dos negócios urbanos necessitam de mão-de-obra, outra parte vai se modernizando com tecnologias eletroeletrônicas. A mão-de-obra advém de um lado da agricultura familiar expulsa pelo agro negócio e de outro da periferia das cidades onde sobrevivem os desalojados pelas tecnologias de produção. Quem escreve sobre parte desse contingente excluído é Verenilde Pereira com seu livro Um rio sem fim.

A história nele contada, que é também uma cobertura jornalística, porque a autora é formada em jornalismo, trata de uma missão católica no interior do Amazonas onde uma de suas atividades era a educação de crianças. Pretendiam os missionários introduzir a civilização e a modernidade aos indígenas através do catolicismo.

Ao mesmo tempo em que levavam às crianças os conceitos e comportamentos urbanizados entendiam que eles deveriam ser melhor apreendidos se as meninas fossem trabalhar nas casas dos ricos e poderosos da capital. Este o retrato das meninas e também meninos que deixavam suas famílias e vida natural para se embrenharem na mundo da cidade como subservientes dos patrões, como foi a autora observadora presente dos acontecimentos.

Esta saga de apartamento do meio familiar e comunal para o engajamento forçado no trato urbano é o argumento e roteiro do livro de Verenilde. As consequências adversas e os desajustes pessoais nas vidas de grande parte dessas crianças mostram o efeito nefasto do tratamento a elas oferecido. O relato objetivo, corajoso e detalhado torna o livro um exemplo concreto e fonte histórica da dominação da religião na desfiguração da vida natural dos indígenas brasileiros.

Futuro ancestral e Um rio sem fim, portanto, como se fossem um só livro dividido em partes distintas, mas complementares, foram os melhores que eu li neste ano de 2025 ao nos contarem como foi e continua a estratégia de o capitalismo utilizar da natureza e dos povos primitivos para a construção e manutenção da selva de concreto e do contingente de mão-de-obra barata para os serviços menos qualificados.

E sagas contadas por dois representantes dos povos originários na visão dos vencidos, mas não perdedores, uma vez que os desajustes climáticos, a devastação da natureza, o aumento da desigualdade e da pobreza urbana, entre outros aspectos da crise civilizatória contemporânea, são as bandeiras tremulando do lado dos pretensos vencedores, donos do capital em suas várias formas. Só que dinheiro e poder não se come e a morte da natureza não alimenta.

Futuro ancestral, de Ailton Krenak, editora Companhia das Letras
Um rio sem fim, de Verenilde S. Pereira, editora Alfaguara

#mestra


Amor de novo
de Doris Lessing
por Sylvia Loeb

Sarah Durham, uma mulher na casa dos 65 anos, que trabalha em uma companhia de teatro e se vê inesperadamente apaixonada — duas vezes — por homens bem mais jovens. A trama explora com profundidade temas como amor, desejo, envelhecimento, solidão, a memória e a identidade, especialmente sob a perspectiva de uma mulher madura enfrentando sentimentos que acreditava ter abandonado.

Sente-se desestabilizada por essas paixões tardias, mas, ao mesmo tempo, viva e ridícula, vulnerável. Ou seja, a autora lida com o envelhecer do corpo e do desejo e com a violência do desejo, que por natureza vem para confundir as normas. O desejo traz consigo um “não saber”: não se sabe de onde veio, por que veio, o que ele quer.

O que seria esse sofrimento senão o tabu do desejo feminino maduro?

Doris Lessing trata o envelhecimento não como decadência, mas como um mundo interno ainda vasto, cheio de zonas vivas, obscuras e sensíveis. O desejo visto como uma força persistente, desconcertante e muitas vezes irracional em qualquer fase da vida. Ele não é “suave” porque Sarah é mais velha; ao contrário, é um abalo sísmico que a faz repensar quem ela foi e quem ainda pode ser.

Os gregos conhecem essa lógica do desejo em Hermes, que vai aonde não se deve, atravessa fronteiras, criar atalhos obscuro, engana e é enganado. Um psicopompo, aquele que transita entre mundos, atravessa limites e semeia confusão.

O amor e o desejo são forças divinas primordiais, que desde o Olimpo, os deuses divertem-se enredando os humanos em suas tramas.

Com escrita reflexiva, austera e analítica, Doris Lessing nos põe diante do espanto da força do desejo e da, muitas vezes, crueldade que acompanha o envelhecer.

Amor, de novo, Doris Lessing, editora Companhia das Letras

Tudo é rio
de CARLA MADERA
por Liliana Wahba

Uma escrita contundente e precisa, sem floreios ou adjetivos superlativos. Descreve fatos e sentimentos de personagens que vivem intensamente, prazeres e tragédias, sem apelar para a compreensão do leitor, sem pedidos de desculpas e, muito menos, de justificativas morais. Assim, nos transporta para acontecimentos íntimos e públicos, um convite a acompanhar o fluir desse rio que conduz a vida. Não só de escolhas é feita a vida, algo acontece, no inesperado, por vezes preparado com antecedência, de modo latente e subliminar, até explodir e arremessar o destino daqueles atingidos pela força de paixões, no bem e no mal. A força da mulher anticonvencional – gosta de ser puta -, contracena com o romantismo trágico de sua rival, e ambas aparentam cultuar seus próprios deuses e deusas, com intensidade que arrebata o leitor. Outras mulheres retratam força, sabedoria e coragem, também maldade. Os homens, apesar de marcantes, são coadjuvantes. Vi que muitos não gostaram do final da história. Também o senti um tanto diluído, mas, qual final seria apropriado? A autora assim o deixou no correr das águas rio.

Tudo é rio, Carla Madeira, editora Record

#maislançamentos

Língua no divã @ Língua no palco
Sergio Zlotnic
Editora Ofício das Palavras

#emCantos
Anete Ring

E essa newsletter de quase Natal termina com um convite para você conhecer o novo trabalho da artista Anete Ringem Cantos. “O nome “Em Cantos“ nasceu da minha própria experiência no atelier”, Anete diz. “Ele remete tanto aos encantos e às surpreendências que as formas e cores abstratas me revelam durante o processo, quanto à constante presença da música e da literatura (os cantos) que inspiram e embalam cada gesto meu.”

…porque, no final, muitos caminhos se cruzam nesta newsletter-canto, espaço para maiores de 60, mas aberto para quem quer que aceite o convite.

#presentedenatal à moda do Substack

O que acontece quando velhos amigos sentam para tomar um café toda semana? No caso destes dois inquietos, Carlos Fernando Castro e Decio Martins de Medeiros, engenheiros de formação e “novos escritores” por absoluta paixão, o resultado foi um livro de ficção sobre o tempo, o calendário e o primeiro Natal. Assine a news e ganhe de presente!


#inquietosdasemana

Áurea Rampazzo foi coordenadora e orientadora das Oficinas de Criação Literária do Museu Lasar Segall e da Fundação Ema Klabin; assistente de redação do Colégio Equipe; Professora do Centro de Formação de Escritores da Casa das Rosas. Seu livro, Um Itinerário de Escrita: o poema, a cena, a crônica, sistematização escrita da metodologia de redação do professor Gílson Rampazzo está em fase de acabamento para ser editado. Suas oficinas, grupos de escrita e palestras acolheram praticamente todos os inquietos aqui do Clube.
Regina Valadares é carioca, bandeou-se pra São Paulo há mais de 30 anos, mas não perde o chiado nem o péssimo hábito de falar sufá, tumate e mustarda, por mais que os filhos a corrijam. Jornalista, já trabalhou em revista, jornal, site. Fez roteiros pra série Tapas e Beijos, escreveu um livro de frases chamado Só uma mulher sabe o que é e nas horas vagas é aprendiz de feiticeira. Nativa de Leão com ascendente em Aquário. Adora escrever ficção, embora seja tudo verdade, e uns sentires loucos que insiste em tentar definir.
José Carlos Peliano é mineiro de Juiz de Fora, nascido em 1948. Economista, poeta e escritor. Seu livro Vadândora, publicado pela editora Patuá, foi primeiro colocado no Prêmio Jorge de Lima de Poesia, UBE, em 1994. Acaba de lançar, pela Kotter Editorial, um livro-homenagem a Pablo Neruda, Nada mais.
Sylvia Loeb é psicanalista. Há mais de 40 anos exerce atividade clínica em consultório, além de coordenar grupos de discussão de psicanálise e literatura e ministrar supervisão clínica. Já publicou Contos do divã, pelo Ateliê Editorial com apoio do Sedes Sapientiae, em 2007, Amores e tropeços, pela Editora Terceiro Nome, em 2010, Heitor, também pela Terceiro Nome, em 2012, e Homens, pela e-galáxia, em 2017. Seu novo livro, Mulheres, publicado pela Ofício das Palavras, já está à venda.
Liliana Whaba é psicóloga, psicanalista junguiana e professora universitária. Escreve contos, crônicas e ensaios acadêmicos. Entende a escrita como caminhar quando o caminho acabou: uma travessia nas estranhezas significativas. Além de vários capítulos em antologias, publicou dois livros: Camille Claudel: criação e loucura, publicado pela Record, em 1996, e Relação médico-paciente: é proibido amar, pela editora Blucher, em 2021.

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